PRA DESCER NO PARAÍSO

Eis o que consegui tremulamente dizer na cerimônia de batizado do meu caçula, ontem.

Há pouco mais de três anos um amigo e fez uma “proposta indecente”, na sua exata expressão. Se eu queria ser a mãe do filho dele. O mero pedido já era uma honra, mas pra me tirar qualquer possibilidade de defesa, ele ainda acrescentou: só você se encaixa no perfil de quem pretendo para essa parceria ad eternum. Até hoje não tenho certeza, mas na hora achei que era u elogio e aceitei. E assim, o que às vezes é um fardo pra muitas mulheres, pra mim tem sido, mais que um privilégio, uma benção diária. Nas primeiras noites que passamos com o bebê, eu  – que já tenho um filho adulto  – , eu é que fui a marinheira de primeira viagem. Meu amigo parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão cuidar de um recém-nascido. E nesses três anos tem sido o pai mais amoroso que uma criança ode ter. Todos somos testemunha disso, e estamos orgulhosos e felizes.

Mas aposto que nesse momento não há ninguém mais feliz e orgulhoso que o autor desse Milagre, Aquele que depositou em nossas mãos inábeis a expressão de seu Amor por nós: uma vida pra cuidar. Se pudéssemos ver Deus agora, acho que Ele apareceria como o imaginam as crianças: um velho de longas barbas brancas. Mas em vez do ar severo que insistem em Lhe dar, exibiria um terno sorriso de vovô voltado para esta Casa.

Cristina Carvalho – escritora, crítica literária, amiga e mãe. Atualmente, dedica-se, também, à tradução da obra literária de Emily Dickinson (1830-1886), composta de 1776 poemas e 44 cartas.

POEMA PARA FERNANDO PESSOA

“Toda a gente é caricatura de uma única pessoa que não existe” – Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA - Marcos Abreu

Algumas impressões do crepúsculo,

e, na hora absurda, vem a chuva oblíqua

nos passos da cruz.

A súbita mão de algum fantasma oculto.

Nesses episódios que me cercam sinto-me múmia.

Onde pus minha esperança?

Nas rosas que florescem!

Feliz dia para quem?

Esse Natal chegou

e o sino de minha aldeia agora toca:

Suave…breve…tão pobre e velha música.

Dorme, agora, sol nulo dos dias vãos.

Ela canta, pobre ceifeira, qualquer música.

É Natal e aqui não neva;

mas agora chegou a tarde calma,

cheia de céu tranquilo.

O momento da Iniciação

chegou lá na sombra do monte,

onde fiz minha autopsicografia.

Naquele momento passou uma nuvem

sob o Sol que dorme, pois sem ele a vida é nada,

apenas uma onda que, enrolada,

está presa no mundo que esquecemos.

Mas eu nunca guardei rebanhos.

Sonhos, ilusões, pois o meu olhar é nítido,

como um girassol.

Está tarde a chuva caiu

e fiquei debruçado sobre a janela.

Há metafísica bastante em não pensar em nada,

já que pensar em Deus é desobedecê-lo?

De minha casa vejo o quanto posso saber do Universo.

De sol a sol não vejo mais rebanhos,

já não me importo com as rimas,

só raras vezes.

Quem me dera que eu fosse o pó da terra,

o luar quando bate na relva.

Há se eu pudesse trincar a terra toda.

O meu olhar azul não se entristeceria.

Conheci, hoje, que só a natureza é divina.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo;

se, às vezes, digo que as flores sorriem,

pobres flores, no canteiro de meu jardim.

Acho tão natural, que não se pense

e há poetas que não são artistas:

vivem como um grande borrão de fogo sujo.

Bendito seja o Sol de toda a Terra!

Da mais alta janela de minha casa,

meto-me para dentro e fecho a janela

e vejo meu mestre.

–  Vem sentar-se comigo, filho,

come à minha mesa,

as rosas do jardim de Adônis estão contigo.

Segue o teu destino de poeta;

não precisas recordar o passado.

A flor que és, não a que dás, eu quero;

não quero só vinho, quero acabar entre flores,

na antemanhã, quero deixar o Nevoeiro

e seguir rumo à paz.

Autor: Marcos Antonio de Abreu, escritor, poeta, cordelista e disseminador cultural

POEMA DE RESISTÊNCIA

VIDA DE DOR

Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.

(Jorge Furtado Poeta e escritor cearense – 2017)

DAS COISAS DE MENINO

o grito            Fantasmas que são fantasmas sempre aparecem. Hoje, por volta de quatro e meia de uma madrugada alta, os meus teimaram em me importunar mais uma vez. Sempre os mesmos que habitavam meus pesadelos de criança, uma vez que, pasmem, nasci a menos de um quilômetro do antigo asilo para loucos de Parangaba. Tinha lugar mais ruim para um escritor um tanto quanto aperreado nascer?

            Ainda hoje, o prédio que habita meus pesadelos de infante está lá, imponente e insano na antiga Estrada dos Arronches, hoje avenida João Pessoa, por onde meus pés calçados em sandálias Havaianas sempre passavam aliados às minhas mãos, que sempre carregavam uma boa baladeira e um cacho ou dois de mamonas penduradas na lateral do calção, a caçar passarinhos por pura diversão. Na falta deles, os pobres calangos pagavam o pato do arteiro que fui. Eram os já há muito idos anos de 1970.

            Tenha-se por Asilo São Vicente de Paulo, o único local onde os loucos legítimos, daqueles que jogam pedras na Lua e tentam voar ficavam trancafiados em cubículos minúsculos, contava minha avó materna quando queria me assustar por conta de alguma peraltice de moleque sem bicicletas ou aniversários.

            Era e ainda é feio o danado do asilo. Prédio recuado e cercado por muros muito altos, de onde nunca se via os verdadeiros loucos, restando às imaginações minhas e de meus fiéis amigos escudeiros de infância difícil ouvir os uivos lancinantes dos que ficavam presos e sem possibilidade remota de escaparem pelo portão da frente.

            É fato histórico que o Doutor Phillipe Pinel, famoso psiquiatra francês, por lá esteve em finais do século 18 para ocupar o cargo de diretor por haver logrado aprovação, em primeiro lugar, em concurso público. Nas mãos trazia seu certificado em papel amarelo pardo e na outra uma autorização para libertar os asilados, muitos deles algemados há mais de 30 anos.

            Reza a lenda que, mal adentrou o recinto dirigiu-se ao carcereiro comunicando-se rispidamente com a seguinte frase:  – “Sou o doutor Pinel e exijo que as portas dessas celas sejam imediatamente abertas”. Nos calabouços onde as trevas eram eternas, esquálidas figuras desvairadas, cabelos revoltos e imundos, entreolhavam-se como fantasmas.

– Mas, senhor, essas portas não são abertas há anos. Todos são loucos, a espúria da sociedade. Se eles saírem se matarão uns aos outros e a nós também. Não farei isso – disse-lhe de supetão o carcereiro, branco como uma vela.

            Ante a negativa do subordinado, o médico tomou-lhe o molho de chaves e foi abrindo as celas uma a uma. Em câmera lenta e com olhares fixos em Pinel, os loucos foram se espalhando, silenciosos, pelos corredores tão imundos quantos as celas. Em dado momento, um homem gigantesco tentava subir as paredes feito uma aranha, os braços e as pernas tentando alcançar o teto onde uma claraboia brilhava ao céu do meio-dia. Revolto e em penitência o maluco ajoelhou-se aos pés do psiquiatra dizendo-lhe que já fazia tempo que não via um raio de sol.

            Essas histórias de trancoso misturadas à dura realidade dos fatos me eram contadas por minha avó materna, Dona Luiza Bravos da Silva, como forma de aquietar o neto mais traquino que ela tinha à época em que morei em uma casa bem ao lado da dela. De onde a vi partir para nunca mais voltar aos 83 anos de idade.

            Saudades daqueles tempos? Claro! Afinal, meu universo infantil era repleto de bilas, bolas de meia, arraias, passarinhos e amigos leais. Muitos deles ainda moram por lá e mesmo depois que parti para o mundo dos adultos, ainda ouço falar de alguns e de suas trajetórias de vida. No entanto, sempre que os sonhos ou pesadelos chegam, ainda somos moleques de calções curtos correndo soltos pelas ruas da minha velha Parangaba, entre chuvas e lembranças pueris.

EU NÃO POSSO DEIXAR DE DIZER, MEU AMIGO!

BELCHIOR PARA KELSEN 2

              Você não sente nem vê, por que o que era jovem e novo hoje é antigo. Ele passou por aqui, deixou dito ao que vinha e pôs o pé na estrada. Largou o corpo tantas vezes ocupado por velhas roupas coloridas e foi…partiu, talvez, na mesma cauda de cometa que o trouxe até nós exatos 70 anos atrás. Como se chamava Belchior, o nome de um dos três reis magos que ao menino Jesus trouxeram ouro, incenso e mirra, deve ter voltado aos seus. Alegrando-os com seu eterno violão, pois uma nova mudança está acontecendo nesse País e mais uma vez vamos precisar deles como nunca. E eles, os jovens, não têm mais tempo de se apaixonar.

            Deixem que ele vá sozinho e decida a nova vida que os céus lhe deram, ou que se ladeei de Poe, poeta louco que talvez o tenha vindo buscar e levar para trocar letras e farpas com Dante em algum de seus Infernos alucinantes, sob a luz de cigarro após cigarro às gargalhadas, rindo dos que por aqui ficaram e agora vão tentar decifrar o que tanto ele escreveu em absoluta duplicidade e cheio de apologias às subliminares de Aleister Crowley.

            Sou da geração que primeiro viu a que vinha o Pessoal do Ceará nos iniciados anos 1970. E cantei ao som de Fagner, Belchior e Ednardo, avisando-nos que talvez morressem jovens em alguma curva do caminho chamando sempre seus bem-amados corações femininos, masculinos ou que algum punhal de amor traído completaria seu destino de traidor. Mas não há jeito, pois morre-se só como só somos fecundados um a uma pelos úteros de nossas amadas mães. E nossos intrépidos pais. Como nossos pais.

            E segui perguntando por novas invenções em 52 anos vividos e ainda tão vívidos neste cérebro que de tudo leu e desses olhos que viram coisas sobre que o novo sempre vem. E como vem e como está vindo de maneira lancinante feito faca e a palo seco. Pois alucinação para mim é suportar a dor de todo dia. Sabendo que o fim espera por nós, sim por VOCÊ, nobre que ora põe seus olhos já um tanto cansados nesses escritos que bem poderiam ser delineados ao infinito falando daqueles que vêm a esse mundo para modificá-lo. E você? O que vai deixar para que te lembrem nesse mundo. Efêmera passagem que levarás em teu exíguo espaço final de morada. Quantas terás para acertar de contas aos que te esperando lado de lá. Que seu olhar tenha sido lacrimoso, Belchior. Passei pelos bagaços de cana do engenho e não tenhas mais medo de avião, pois agora te tornastes alado.