ELEGIA ÀS MÃES QUE SE FORAM

DIA DAS MÃES

Nesta quebrada de montanha, donde o mar

Parece manso como em recôncavo de angra,

Tudo que há de infantil dentro de minhalma sangra,

Na dor de ter te visto, mãe, agonizar!

(Manoel Bandeira, em “Cinzas das Horas” (1917)

            Se um dia quiseres saber quem sou pergunte a quem sonha, quem sabe da palavra poética, tantas vezes profética. Sou dos que sonham e apesar de tanto sangue já ter perdido, continuo vivo e adorando esses bichos que têm mania de perder coisas…uns tais chamados computadores. E mesmo sendo dos tempos em que máquinas de escrever e papéis carbono ditavam a moda, preciso seguir as coisas novas que também são boas.

         Desde os tempos em que Vinícius datilografava seus originais entre um uísque e outro, dentro de sua banheira em um velho apartamento de Ipanema, sempre gostei do sabor da pena; fosse em forma de lápis, caneta esferográfica ou de uma velha caneta-tinteiro, herança que peguei de meu velho avô quando ele partiu para o céu virar estrela.

            Era moleque quando descobri que além de gostar de bilas, bolas e baladeiras, gostava também de escrever. Tenho um certo primo que também foi atacado por esse negócio de meter no papel as coisas de menino ainda. Ele nunca vai lembrar e se lembrar vai ser de maneira bem lá no antigo. Recordará que escrevemos juntos nosso primeiro livro. Sim, em conjunto com ele rabiscamos originais sobre o que viria a ser um livro de histórias a se propor, desde então, a fazer frente às Reinações de Narizinho. Ora, se éramos Monteiro, por que não escrevermos como Lobato? E assim o fizemos.

            Infelizmente, o tempo, esse sujeito indelével, se encarregou de desaparecer com aqueles originais que para nós hoje seriam, certamente, um tesouro qualquer da nossa juventude. Por muito tempo os guardei, mas tão logo mudei-me da rua de terra branca em que nasci e me criei em algum lugar da casa onde passei anos a morar devem ter sido esquecidos.

               Os meus escritos eram feitos ao sentir do cheiro dos bolos que minha avó Luíza em perfeita sinfonia com tia Lucimar faziam. A mim, cabia lamber as formas e colheres –de-pau untadas do velho chocolate em pó cuja marca nem me interessava saber.

            Quanto aos originais de nossa “obra-prima”, velho primo, eles devem ter sido devorados pelo tempo e pelas traças. Não os possuo mais, como já afirmei. Mas lembrarei para sempre das coisas de dois moleques, hoje reais poetas, a traquinar e escrever sobre coisas que eu nem sei mais do que tratavam. Que fiquem o recordar e uma elegia às mães que já se foram ao Céu de onde nos olham em desvelo.

VIDA DE DOR

Tem piedade de mim! Deixa-me ao menos
Desfrutar um momento de prazer,
Pois que é meu fado despontar na aurora
E ao crepúsc’ulo morrer!…

Vida de Flor – Fagundes Varela

 

DORES DA ALMA

 

Hoje estava a relembrar-me de alguns poetas de lida e de linho. Conheci muitos. Dos que vestiam a mesma roupa, sempre, aos janotas dos clubes e saraus modernosos, cheios de perfumes e firulas a declamar e decantar suas musas, seus feitos bravios, suas conquistas e metais raros.

Como atravessei o século 20 e já estou no 21, não foram poucos os bardos que vi passarem dessa para melhor. Uns em cortejos dignos de garbosos féretros outros na mais completa solidão de alguns gatos pintados e carpideiras de última hora. O certo é que ela sempre vem, incólume e silenciosa. Senta-se e espera com seu rosto magro que os tolos sepultem o que sobrou de um poeta, lambendo os beiços por ter levado mais um ou uma que cismou em desafiá-la, cada qual ao seu modo. Para quê citar ou não citar nomes? Simples! Com muitos só troquei um bom dia e de outros fui amigo até hoje mesmo depois de suas idas sem vindas nem vidas. Mas é melhor deixar os mortos em seus descansos finais para darmos mais fluidez nesse mero texto ora a homenagear um amigo. Ainda vivo, diga-se de passagem.

Mais um desses sujeitos simpáticos que conheci vendendo ou distribuindo sua poesia pelas ruas e praças de Fortaleza nos idos anos 1990, já de bengala às mãos feito um Chaplin com ares de cearense da gema. Falo de Jorge Furtado, que até no nome não foi poupado no que se diz respeito à sua beleza. Sempre risonho é outra dessas figuras ímpares que te fazer sorrir e não rir de suas estripulias. A exemplo de já ter espalhado sua passagem mais de umas vinte vezes o que de início, qual a fábula do garoto e seus cordeiros, sempre nos deixava tristes, enlutados e pensando como faríamos para dar conta de outro Mário Gomes.

Brincadeira dele, sim! Sempre teve essa mania de dizer morto, o velho Jorge. E pode anotar aí, que de tanto falar nesse tom de decoreba um dia ele acaba acertando e ninguém vai acreditar. Creio que só vamos encontrar o Jorge da mesma forma que foi encontrado o Nilto Maciel, uns três dias depois e, ainda assim, por acaso.

Está cansado, só e doente Jorge Furtado. Ossos fustigados. Dia desses me falou que está sendo muito bem amparado pelo pessoal da Casa do Cantador de Fortaleza, mais conhecida como ACN – Associação dos Cantadores do Nordeste, lá para os lados do Carlito Pamplona.

Traços de quem sabe das dores que deveras sente, mas não perde a piada de revés; aquela que chega em tom de chiste e sempre enrola a gente com o jeito moleque de cearense de ser. Findo-me, pois, a admirar e suscitar as dores que afligem o poeta ao escrever os versos abaixo em pleno vigor de sua capacidade intelectual em detrimento de sua saúde física. Mas, enfim, eles são assim mesmo, eternizam-se em seus escritos:

POEMA DE RESISTÊNCIA

Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.

(Jorge Furtado, poeta, cordelista e amante das Artes – 2017)

PRA DESCER NO PARAÍSO

Eis o que consegui tremulamente dizer na cerimônia de batizado do meu caçula, ontem.

Há pouco mais de três anos um amigo e fez uma “proposta indecente”, na sua exata expressão. Se eu queria ser a mãe do filho dele. O mero pedido já era uma honra, mas pra me tirar qualquer possibilidade de defesa, ele ainda acrescentou: só você se encaixa no perfil de quem pretendo para essa parceria ad eternum. Até hoje não tenho certeza, mas na hora achei que era u elogio e aceitei. E assim, o que às vezes é um fardo pra muitas mulheres, pra mim tem sido, mais que um privilégio, uma benção diária. Nas primeiras noites que passamos com o bebê, eu  – que já tenho um filho adulto  – , eu é que fui a marinheira de primeira viagem. Meu amigo parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão cuidar de um recém-nascido. E nesses três anos tem sido o pai mais amoroso que uma criança ode ter. Todos somos testemunha disso, e estamos orgulhosos e felizes.

Mas aposto que nesse momento não há ninguém mais feliz e orgulhoso que o autor desse Milagre, Aquele que depositou em nossas mãos inábeis a expressão de seu Amor por nós: uma vida pra cuidar. Se pudéssemos ver Deus agora, acho que Ele apareceria como o imaginam as crianças: um velho de longas barbas brancas. Mas em vez do ar severo que insistem em Lhe dar, exibiria um terno sorriso de vovô voltado para esta Casa.

Cristina Carvalho – escritora, crítica literária, amiga e mãe. Atualmente, dedica-se, também, à tradução da obra literária de Emily Dickinson (1830-1886), composta de 1776 poemas e 44 cartas.

POEMA PARA FERNANDO PESSOA

“Toda a gente é caricatura de uma única pessoa que não existe” – Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA - Marcos Abreu

Algumas impressões do crepúsculo,

e, na hora absurda, vem a chuva oblíqua

nos passos da cruz.

A súbita mão de algum fantasma oculto.

Nesses episódios que me cercam sinto-me múmia.

Onde pus minha esperança?

Nas rosas que florescem!

Feliz dia para quem?

Esse Natal chegou

e o sino de minha aldeia agora toca:

Suave…breve…tão pobre e velha música.

Dorme, agora, sol nulo dos dias vãos.

Ela canta, pobre ceifeira, qualquer música.

É Natal e aqui não neva;

mas agora chegou a tarde calma,

cheia de céu tranquilo.

O momento da Iniciação

chegou lá na sombra do monte,

onde fiz minha autopsicografia.

Naquele momento passou uma nuvem

sob o Sol que dorme, pois sem ele a vida é nada,

apenas uma onda que, enrolada,

está presa no mundo que esquecemos.

Mas eu nunca guardei rebanhos.

Sonhos, ilusões, pois o meu olhar é nítido,

como um girassol.

Está tarde a chuva caiu

e fiquei debruçado sobre a janela.

Há metafísica bastante em não pensar em nada,

já que pensar em Deus é desobedecê-lo?

De minha casa vejo o quanto posso saber do Universo.

De sol a sol não vejo mais rebanhos,

já não me importo com as rimas,

só raras vezes.

Quem me dera que eu fosse o pó da terra,

o luar quando bate na relva.

Há se eu pudesse trincar a terra toda.

O meu olhar azul não se entristeceria.

Conheci, hoje, que só a natureza é divina.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo;

se, às vezes, digo que as flores sorriem,

pobres flores, no canteiro de meu jardim.

Acho tão natural, que não se pense

e há poetas que não são artistas:

vivem como um grande borrão de fogo sujo.

Bendito seja o Sol de toda a Terra!

Da mais alta janela de minha casa,

meto-me para dentro e fecho a janela

e vejo meu mestre.

–  Vem sentar-se comigo, filho,

come à minha mesa,

as rosas do jardim de Adônis estão contigo.

Segue o teu destino de poeta;

não precisas recordar o passado.

A flor que és, não a que dás, eu quero;

não quero só vinho, quero acabar entre flores,

na antemanhã, quero deixar o Nevoeiro

e seguir rumo à paz.

Autor: Marcos Antonio de Abreu, escritor, poeta, cordelista e disseminador cultural

POEMA DE RESISTÊNCIA

VIDA DE DOR

Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.

(Jorge Furtado Poeta e escritor cearense – 2017)

DAS COISAS DE MENINO

o grito            Fantasmas que são fantasmas sempre aparecem. Hoje, por volta de quatro e meia de uma madrugada alta, os meus teimaram em me importunar mais uma vez. Sempre os mesmos que habitavam meus pesadelos de criança, uma vez que, pasmem, nasci a menos de um quilômetro do antigo asilo para loucos de Parangaba. Tinha lugar mais ruim para um escritor um tanto quanto aperreado nascer?

            Ainda hoje, o prédio que habita meus pesadelos de infante está lá, imponente e insano na antiga Estrada dos Arronches, hoje avenida João Pessoa, por onde meus pés calçados em sandálias Havaianas sempre passavam aliados às minhas mãos, que sempre carregavam uma boa baladeira e um cacho ou dois de mamonas penduradas na lateral do calção, a caçar passarinhos por pura diversão. Na falta deles, os pobres calangos pagavam o pato do arteiro que fui. Eram os já há muito idos anos de 1970.

            Tenha-se por Asilo São Vicente de Paulo, o único local onde os loucos legítimos, daqueles que jogam pedras na Lua e tentam voar ficavam trancafiados em cubículos minúsculos, contava minha avó materna quando queria me assustar por conta de alguma peraltice de moleque sem bicicletas ou aniversários.

            Era e ainda é feio o danado do asilo. Prédio recuado e cercado por muros muito altos, de onde nunca se via os verdadeiros loucos, restando às imaginações minhas e de meus fiéis amigos escudeiros de infância difícil ouvir os uivos lancinantes dos que ficavam presos e sem possibilidade remota de escaparem pelo portão da frente.

            É fato histórico que o Doutor Phillipe Pinel, famoso psiquiatra francês, por lá esteve em finais do século 18 para ocupar o cargo de diretor por haver logrado aprovação, em primeiro lugar, em concurso público. Nas mãos trazia seu certificado em papel amarelo pardo e na outra uma autorização para libertar os asilados, muitos deles algemados há mais de 30 anos.

            Reza a lenda que, mal adentrou o recinto dirigiu-se ao carcereiro comunicando-se rispidamente com a seguinte frase:  – “Sou o doutor Pinel e exijo que as portas dessas celas sejam imediatamente abertas”. Nos calabouços onde as trevas eram eternas, esquálidas figuras desvairadas, cabelos revoltos e imundos, entreolhavam-se como fantasmas.

– Mas, senhor, essas portas não são abertas há anos. Todos são loucos, a espúria da sociedade. Se eles saírem se matarão uns aos outros e a nós também. Não farei isso – disse-lhe de supetão o carcereiro, branco como uma vela.

            Ante a negativa do subordinado, o médico tomou-lhe o molho de chaves e foi abrindo as celas uma a uma. Em câmera lenta e com olhares fixos em Pinel, os loucos foram se espalhando, silenciosos, pelos corredores tão imundos quantos as celas. Em dado momento, um homem gigantesco tentava subir as paredes feito uma aranha, os braços e as pernas tentando alcançar o teto onde uma claraboia brilhava ao céu do meio-dia. Revolto e em penitência o maluco ajoelhou-se aos pés do psiquiatra dizendo-lhe que já fazia tempo que não via um raio de sol.

            Essas histórias de trancoso misturadas à dura realidade dos fatos me eram contadas por minha avó materna, Dona Luiza Bravos da Silva, como forma de aquietar o neto mais traquino que ela tinha à época em que morei em uma casa bem ao lado da dela. De onde a vi partir para nunca mais voltar aos 83 anos de idade.

            Saudades daqueles tempos? Claro! Afinal, meu universo infantil era repleto de bilas, bolas de meia, arraias, passarinhos e amigos leais. Muitos deles ainda moram por lá e mesmo depois que parti para o mundo dos adultos, ainda ouço falar de alguns e de suas trajetórias de vida. No entanto, sempre que os sonhos ou pesadelos chegam, ainda somos moleques de calções curtos correndo soltos pelas ruas da minha velha Parangaba, entre chuvas e lembranças pueris.

EU NÃO POSSO DEIXAR DE DIZER, MEU AMIGO!

BELCHIOR PARA KELSEN 2

              Você não sente nem vê, por que o que era jovem e novo hoje é antigo. Ele passou por aqui, deixou dito ao que vinha e pôs o pé na estrada. Largou o corpo tantas vezes ocupado por velhas roupas coloridas e foi…partiu, talvez, na mesma cauda de cometa que o trouxe até nós exatos 70 anos atrás. Como se chamava Belchior, o nome de um dos três reis magos que ao menino Jesus trouxeram ouro, incenso e mirra, deve ter voltado aos seus. Alegrando-os com seu eterno violão, pois uma nova mudança está acontecendo nesse País e mais uma vez vamos precisar deles como nunca. E eles, os jovens, não têm mais tempo de se apaixonar.

            Deixem que ele vá sozinho e decida a nova vida que os céus lhe deram, ou que se ladeei de Poe, poeta louco que talvez o tenha vindo buscar e levar para trocar letras e farpas com Dante em algum de seus Infernos alucinantes, sob a luz de cigarro após cigarro às gargalhadas, rindo dos que por aqui ficaram e agora vão tentar decifrar o que tanto ele escreveu em absoluta duplicidade e cheio de apologias às subliminares de Aleister Crowley.

            Sou da geração que primeiro viu a que vinha o Pessoal do Ceará nos iniciados anos 1970. E cantei ao som de Fagner, Belchior e Ednardo, avisando-nos que talvez morressem jovens em alguma curva do caminho chamando sempre seus bem-amados corações femininos, masculinos ou que algum punhal de amor traído completaria seu destino de traidor. Mas não há jeito, pois morre-se só como só somos fecundados um a uma pelos úteros de nossas amadas mães. E nossos intrépidos pais. Como nossos pais.

            E segui perguntando por novas invenções em 52 anos vividos e ainda tão vívidos neste cérebro que de tudo leu e desses olhos que viram coisas sobre que o novo sempre vem. E como vem e como está vindo de maneira lancinante feito faca e a palo seco. Pois alucinação para mim é suportar a dor de todo dia. Sabendo que o fim espera por nós, sim por VOCÊ, nobre que ora põe seus olhos já um tanto cansados nesses escritos que bem poderiam ser delineados ao infinito falando daqueles que vêm a esse mundo para modificá-lo. E você? O que vai deixar para que te lembrem nesse mundo. Efêmera passagem que levarás em teu exíguo espaço final de morada. Quantas terás para acertar de contas aos que te esperando lado de lá. Que seu olhar tenha sido lacrimoso, Belchior. Passei pelos bagaços de cana do engenho e não tenhas mais medo de avião, pois agora te tornastes alado.