Apóstolo 1

apóstolos

cai a tarde com um anjo de verso usual
com rodas de fogo e veloz nos levou
a face, a taça, o vinho e a pena de metal.
o velho está morto! jaz apolíneo e morto

na paranoia do espetáculo o manuscrito
da urgência – o alfabeto do dia-a-dia.
esmaga o crânio de Lúcifer – maldito
e sorri no plenilúnio dos seios das ninfas.

equinócio das vacas, sussurros das coisas,
no tecer da rendeira a violência te calou.
como quem descreve no asfalto doidas

histórias (motos), dragões e tuas mágoas
nosso relicário dor de órbitas e cotidiano
velhas parábolas e prantos em teu manto.

Soneto do poeta José leite Netto, a ser publicado, em breve, no livro TRAPÉZIO. Uma homenagem a José Alcides Pinto.

A FATAL SENHORA

Morte

“Zum, zum, zum… está faltando um!”
(Paulo Soledade e Fernando Lobo)

No meu diálogo com o silêncio do convés,
Falta um céu azul risonho para o meu sol,
Falta um relvado que fugiu dos meus pés,
Falta um sonho que apagou-se no arrebol.

Falta sempre o Alguém pela ampulheta da hora,
Estou sempre órfão e viúvo no portão do jardim.
Estou sempre à espera da invasora fatal Senhora
Que chegará a qualquer hora sem pena de mim.

Dioguinho Fontenelle – Amigo e poeta que dispensa apresentações.

UM POEMA DE ARACELI SOBREIRA BENEVIDES

estátuas-de-mármore

Um dia a gente tem mãe, baby,
Tem dia que não tem mais.
A gente desce uma ladeira
Correndo, segurando uma rosa branca na mão
Noutro dia, a rosa escurece, esvai-se em leveza.
Um dia, um guarda-chuva arco-íris
Protege-nos dos trovões
E nossos risos embaixo da cama
Se encontram com as formigas e as aranhas
“E as mães que não varreram nada?
Não viram nada?”
Muitas cicatrizes na pele preta, na pele parda
Muita dor na carne crua
Um menino sozinho na violência da vida
Baby, é isso que acontece, quando as mães morrem cedo,
Antes da chuva do meio-dia.
Antes da torta de framboesa…
Antes que os vestidos fiquem longos
E as tranças fiquem feitas.
Baby, é isso que acontece quando as mães
Não sabem como o Mal
Entra na pele das crianças
E as estátuas de mármore não revelam para onde foi toda a inocência das baladas de ninar…

Lembrando de alguém que sofreu mais do que eu!
Em 05/06/17 – Por Araceli Sobreira Benevides – Amiga e poeta.

CEM ANOS DEPOIS

 

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. (Rachel de Queiroz “O Quinze”)

– Eita, homem! Que sequidão é essa?!

– Sei lá, mas pelo piado desse bem-te-vi o negócio vai ser brabo pelo resto do ano. Dessa vez falta água de até nas vazantes dessa terra desgraçada e miserável.

E o calor transcorria seco, rasgado e modorrento pelos ares nada úmidos daquele interior perdido no tempo. Perecia fogo em brasa. E como onde há fumaça há fogo por lá também havia. Restos de bois e cabritos magros abandonados por Deus e até mesmo pelo diabo naquela torridão de chão que já se alastrava até a capital.

Caminhavam cabisbaixos em número de três contando os mosaicos formados pelo barro que havia surgido onde antes havia água para uma boa pescaria regada a uma pinga de cabeça, coisa que só eles sabiam o que era. Largaram tudo e rumaram para a cidade mais próxima. Pior do que ali não podia estar – dizia o que aparentemente era mais esperto dos miolos.

            – Diachos! Nem meu burro velho escapou comendo palma. Taí o resultado desse ano de 15. Gente morrendo de fome e nós no meio delas. Se pelo menos pai tivesse sobrevivido aos maus tratos das dores nas pernas ele ia dar uma luz de pra onde a gente ir.

            No caminho, léguas e légua já percorridas, uma casinha de taipa ou a sombra de um bom juazeiro sempre serviam de abrigo ali pelo meio-dia, quando ficava impossível de caminhar sem rumo, ou pelo faro como dizia o menos servido de raciocínio.

 – Foi aqui onde nasci e me criei. Pai e mãe, avô e vó, todos eram agricultores. Não tenho vontade de deixar, de sair e ir para cidade não tenho vontade, não. Fui criado na agricultura e queria viver por aqui mesmo até quando Deus quiser.

– Cala a boca e anda, irmão. Eu te falei pra não trocar tua bezerra por esse tal de telefone celular que taí, na tua matalotagem, sem servir pra nada. Nem eletricidade tinha mais lá em casa quando tu fez essa bela troca com aquele galego dos diabos, que apareceu por lá cheio de porcarias pra vender e pra trocar. Mas, não, você foi na dele e deu no que deu. Tá lá, a casa fechada. Cadeado na meia porta sujeito a qualquer um invadir nossa morada de barro batido que pai fez pra a gente morar em cima daquele lajedo. Burro!

Deve ser um segredo guardado a sete chaves pelos centenários sertanejos que ainda habitam aquela região, mas muitos comentam ao pé do ouvido que há, com certeza, uma profecia sertaneja preconizando que a cada cem anos uma devastadora estiagem irá assolar todas as redondezas. A seca sempre virá destruindo e queimando tudo, tangendo da vida animais e plantas, amedrontando o homem mais destemido e demonstrando todas as fragilidades dos viventes diante das forças revoltosas da natureza. Reza uma lenda, que isto estava escrito num pedaço de umburana, guardado dentro de um alforje carcomido e escondido numa gruta nas proximidades da divisa entre Canindé e Poço Redondo. Conto assim porque assim me contaram, porque assim ouvi falar.

Com o mormaço por companheiro, o terceiro irmão que até ali não havia aberto a boca, saiu-se com essa lembrança. Coisa passada de ouvido a ouvido por gerações inteiras sobre almas penadas e gente morta de sede.

– Vocês lembram de quando vô ficava proseando com os amigos e falou que já fazia tempo que uma tal de seca de 1915 tinha quase acabado com esse nosso Ceará? Vinha ele e tio Abinêr conversando por uma estrada e começaram a conversar sobre o assunto, e foi quando um deles parou e disse espantado: “Danou-se, cumpade, pois se dizem que uma das maiores secas foi a de 1915, a que vem aí vai ser em 2015, que é quando completa cem anos”. E seguiram caminho acima, visivelmente preocupados, sem trocar mais nenhum pé de palavra.

 – Para de conversa, besta dos diachos, e anda sem falar tanta porcaria. Tá vendo aquele pé de Juá lá na frente? – Disse o irmão mais velho, atalhando a vista com a palma da mão para encobrir o tremeluzir do vento quente que tracejava ilusões de ótica nas vistas cansadas daqueles três andarilhos.

– Vamos parar por lá hoje pra mode descansar. Quem sabe num tem uma alma viva numa casa qualquer pra nos dar uma noite de descanso e um pouco de água e comida?!

            Com efeito, a seca de 1915 foi uma das mais terríveis que já se espalhou pela região nordestina. Foi a inclemência da devastação de tudo acima e abaixo da terra, do desespero do homem e da dizimação dos rebanhos, da fome e da sede alastradas em progressão alarmante, das muitas e muitas levas de retirantes abandonando seus lugarejos já quase mortos. Foi nessa estiagem que, para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense criou campos de concentração nos arredores das grandes cidades, nos quais recolhia os flagelados. A varíola fez centenas de mortos no Campo do Alagadiço, próximo a Fortaleza, lugarejo onde em 1829 nasceu José de Alencar.

Lá se espremiam mais de 8 mil pessoas, sem a presença de condições sanitárias, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados. A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou “molambudos”, como eram também conhecidos. O que era ruim ficou pior ainda.

            Dados informam que durante semelhante estiagem teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migraram para escapar da “velha do chapelão” – como a fome era conhecida no imaginário do semiárido.

            Segredos de alforje ou não, parecia que a velha profecia voltava a se realizar e os três irmãos, enfim, chegaram ao precioso pé de Juazeiro onde pessoas não haviam, mas a sombra que por lá se agigantava deu guarida aos caminhantes e suas pernas já cansadas de tantas léguas tiranas. Ficariam por ali até à noite quando a fresca da madrugada, enfim, resfriava um pouco o enfado de um dia inteiro a caminhar no rumo da tão sonhada cidade de Fortaleza, onde tinham parentes que, quem sabe, os socorreriam ante tamanha necessidade.

            A tarde veio, a noite chegou e o silêncio só era quebrado agora pelos piados das corujas rasga-mortalhas que teimavam em sair à noite à caça de roedores, esses sim, uma verdadeira peste nos descampados do sertão jaguaribano.

            Uma pequena fogueira tinha sido acesa para assar um velho pedaço de charque que ainda teimava em sobrar nas mochilas carregadas às costas pelos três irmãos. O mais velho, soturno e quase sempre calado quando a noite chegava estava lá com seus medos de visagens, quando se saiu com uma solução pensada e repensada milhares de vezes.

– Amanhã bem cedo vamos tratar de pegar uma dessas pistas para a gente dar um rumo melhor da cidade. Andando por esses torrões sem eira nem beira não vamos chegar é em lugar nenhum. – Afirmou, tendo por concordância o balançar de cabeças de seus irmãos mais novos.

Dito e feito! Pelo amanhecer do dia e com o calor já comendo de esmola, rumaram para a rodovia mais próxima de que tinham notícias. Má escolha. Os poucos caminhões e carros que passavam se recusavam terminantemente a lhes dar carona e o solo abrasador do asfalto só aquecia mais as laterais cheias de seixos. O máximo que tinham conseguido era um pouco de água que um caminhoneiro resolveu lhes dar juntamente com carnes enlatadas retiradas da carga que, às pressas, rumava em sentido contrário ao seu.

Mais um dia de sequidão e solidão conseguiram, por fim, caronas mal-ajambradas em cima de um caminhão que conduzia uma carga de caixas de mantimentos para Fortaleza. Enfim, chegariam à cidade da luz onde, sem saberem, dois milhões e meio de pessoas se apinhavam num indo e vindo de transeuntes a caminho do trabalho ou à procura desse.

Tinham que encontrar os parentes que pelo que sabiam também não andavam bem das finanças, mas haveriam de lhes dar um norte, um trabalho qualquer para ajudar a tocar a vida. Como estava indo para a Governador Sampaio descarregar, o caminhoneiro os deixou no centro de onde poderiam encontrar condução para o bairro que eles buscavam. Desceram e agradeceram com o gestual típico do povo interiorano para, rotos, desapareceram em meio à multidão de pernas que se apressavam em mais uma manhã de segunda-feira causticante. Estavam na cidade grande, onde nenhum deles jamais tinha pisado. Uma sensação de perda ficara para trás ao mesmo tempo que, abismados com tantas pessoas e prédios, se interrogavam como chegariam ao endereço contido em um velho pedaço de papel. De casa, só as lembranças perdurariam, enquanto se engendravam pelas ruas da capital do Sol em busca talvez de nada.