EM RESPOSTA ÀS QUESTÕES DE CHICO ARAUJO

PERNAS


Enquanto não, ela me olhar, e olhar e olhar o ir e vir das pessoas nas ruas e

avenidas e praças por onde também vou passando…Ela me vai martelando o juízo, insistente, sem cerimônia: “Para onde vão essas pessoa essas pessoas em seus dias?”  (Chico Araujo)

            Acabei de ler uma crônica do ensaísta e escritor Chico Pessoa cuja qual me foi enviada por Kelsen Bravos para meu doce alento e frescor nesta tarde quente de maio. Não deu outra: lá se veio esta que tenta explicar as perguntas aparentemente simples que o poeta nos faz: Que rumos todas as pessoas tomam em seus dias a dias confusos e de certa forma um tanto sem pés nem cabeças?

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.[1]

Em poema homônimo já beliscando cruelmente as mesmas – que também faço minhas – perguntas de Chico Araujo; um tal poeta de sete faces chamado Carlos Drummond de Andrade já se nos antecipava em perguntas indeléveis e marcantes, nos fazendo relembrar de uma certa senhora que nos persegue todos os dias em seu silêncio sepulcral: a Morte! Sim! Ela mesma, prezado Chico Araújo e ledores. Todos os passos que damos na vida, sejam eles felizes, vitoriosos ou não, nos conduzem, incólumes, a essa triste sina final. E aí, não tem jeito: adiante com os versos de Drummond para explicar esse meu texto que é, no fim, o início de mais um tratado de para onde vão todos os seres do planeta quando param de caminhar para sempre:

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Creiamos: a essas horas de uma tarde modorrenta e quente como os infernos de Dante existem milhões de pernas a trafegar buscando não só seus rumos, mas também seu pão de cada dia em um País que está se acabando em meio aos sargaços da corrupção e desavenças partidárias.

Mas a palavra – e seu sentido crucial – segue. E continuará seguindo e sendo preparada amiúde por aqueles que a dominam e buscam a todo intento fazê-lo. Pois aos que escrevem derramou-se sobre eles a famigerada maldição de Sísifo que, em engendrado ensaio filosófico de Albert Camus que se inicia no descrever de uma condição absurda: grande parte da nossa vida é construída sobre a esperança do amanhã; do amanhã que nos aproxima da morte, e é o último inimigo.

Pessoas vivem como se elas não tivessem a certeza da morte; uma vez despojado do romancismo comum, o mundo é um estranho, desarrumado e desumano lugar, onde o verdadeiro conhecimento é impossível de ser explicado pela racionalidade da ciência em favor do mundo: suas histórias, em última análise, no sentido de abstrações, se dão em metáforas. Desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna a mais angustiante de todas as paixões, onde Camus apresenta o mito para trabalhar uma metáfora sobre a vida moderna, como trabalhadores em empregos fúteis em fábricas e escritórios. O operário de hoje trabalha todos os dias em sua vida, executando as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico quando apenas em raros momentos ele se torna consciente.

A abordagem sobre pessoas que vem e vão entre seus problemas e casmurrices sempre fez parte do universo dos escritores ensaístas. Comigo e Chico Araujo não seria diferente e jamais haverei de me comparar a Camus, Drummond ou Lira Neto. Mas fica a promessa de sempre estar em busca de uma verdade que para a qual jamais encontraremos resposta: o que nos espera depois de cessarem nossos passos? E jornada das pernas e pedras continua!

[1] Poema de sete faces, do livro “Alguma Poesia” – 1930.

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