VIDA DE DOR

Tem piedade de mim! Deixa-me ao menos
Desfrutar um momento de prazer,
Pois que é meu fado despontar na aurora
E ao crepúsc’ulo morrer!…

Vida de Flor – Fagundes Varela

 

DORES DA ALMA

 

Hoje estava a relembrar-me de alguns poetas de lida e de linho. Conheci muitos. Dos que vestiam a mesma roupa, sempre, aos janotas dos clubes e saraus modernosos, cheios de perfumes e firulas a declamar e decantar suas musas, seus feitos bravios, suas conquistas e metais raros.

Como atravessei o século 20 e já estou no 21, não foram poucos os bardos que vi passarem dessa para melhor. Uns em cortejos dignos de garbosos féretros outros na mais completa solidão de alguns gatos pintados e carpideiras de última hora. O certo é que ela sempre vem, incólume e silenciosa. Senta-se e espera com seu rosto magro que os tolos sepultem o que sobrou de um poeta, lambendo os beiços por ter levado mais um ou uma que cismou em desafiá-la, cada qual ao seu modo. Para quê citar ou não citar nomes? Simples! Com muitos só troquei um bom dia e de outros fui amigo até hoje mesmo depois de suas idas sem vindas nem vidas. Mas é melhor deixar os mortos em seus descansos finais para darmos mais fluidez nesse mero texto ora a homenagear um amigo. Ainda vivo, diga-se de passagem.

Mais um desses sujeitos simpáticos que conheci vendendo ou distribuindo sua poesia pelas ruas e praças de Fortaleza nos idos anos 1990, já de bengala às mãos feito um Chaplin com ares de cearense da gema. Falo de Jorge Furtado, que até no nome não foi poupado no que se diz respeito à sua beleza. Sempre risonho é outra dessas figuras ímpares que te fazer sorrir e não rir de suas estripulias. A exemplo de já ter espalhado sua passagem mais de umas vinte vezes o que de início, qual a fábula do garoto e seus cordeiros, sempre nos deixava tristes, enlutados e pensando como faríamos para dar conta de outro Mário Gomes.

Brincadeira dele, sim! Sempre teve essa mania de dizer morto, o velho Jorge. E pode anotar aí, que de tanto falar nesse tom de decoreba um dia ele acaba acertando e ninguém vai acreditar. Creio que só vamos encontrar o Jorge da mesma forma que foi encontrado o Nilto Maciel, uns três dias depois e, ainda assim, por acaso.

Está cansado, só e doente Jorge Furtado. Ossos fustigados. Dia desses me falou que está sendo muito bem amparado pelo pessoal da Casa do Cantador de Fortaleza, mais conhecida como ACN – Associação dos Cantadores do Nordeste, lá para os lados do Carlito Pamplona.

Traços de quem sabe das dores que deveras sente, mas não perde a piada de revés; aquela que chega em tom de chiste e sempre enrola a gente com o jeito moleque de cearense de ser. Findo-me, pois, a admirar e suscitar as dores que afligem o poeta ao escrever os versos abaixo em pleno vigor de sua capacidade intelectual em detrimento de sua saúde física. Mas, enfim, eles são assim mesmo, eternizam-se em seus escritos:

POEMA DE RESISTÊNCIA

Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.

(Jorge Furtado, poeta, cordelista e amante das Artes – 2017)

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