DAS COISAS DE MENINO

o grito            Fantasmas que são fantasmas sempre aparecem. Hoje, por volta de quatro e meia de uma madrugada alta, os meus teimaram em me importunar mais uma vez. Sempre os mesmos que habitavam meus pesadelos de criança, uma vez que, pasmem, nasci a menos de um quilômetro do antigo asilo para loucos de Parangaba. Tinha lugar mais ruim para um escritor um tanto quanto aperreado nascer?

            Ainda hoje, o prédio que habita meus pesadelos de infante está lá, imponente e insano na antiga Estrada dos Arronches, hoje avenida João Pessoa, por onde meus pés calçados em sandálias Havaianas sempre passavam aliados às minhas mãos, que sempre carregavam uma boa baladeira e um cacho ou dois de mamonas penduradas na lateral do calção, a caçar passarinhos por pura diversão. Na falta deles, os pobres calangos pagavam o pato do arteiro que fui. Eram os já há muito idos anos de 1970.

            Tenha-se por Asilo São Vicente de Paulo, o único local onde os loucos legítimos, daqueles que jogam pedras na Lua e tentam voar ficavam trancafiados em cubículos minúsculos, contava minha avó materna quando queria me assustar por conta de alguma peraltice de moleque sem bicicletas ou aniversários.

            Era e ainda é feio o danado do asilo. Prédio recuado e cercado por muros muito altos, de onde nunca se via os verdadeiros loucos, restando às imaginações minhas e de meus fiéis amigos escudeiros de infância difícil ouvir os uivos lancinantes dos que ficavam presos e sem possibilidade remota de escaparem pelo portão da frente.

            É fato histórico que o Doutor Phillipe Pinel, famoso psiquiatra francês, por lá esteve em finais do século 18 para ocupar o cargo de diretor por haver logrado aprovação, em primeiro lugar, em concurso público. Nas mãos trazia seu certificado em papel amarelo pardo e na outra uma autorização para libertar os asilados, muitos deles algemados há mais de 30 anos.

            Reza a lenda que, mal adentrou o recinto dirigiu-se ao carcereiro comunicando-se rispidamente com a seguinte frase:  – “Sou o doutor Pinel e exijo que as portas dessas celas sejam imediatamente abertas”. Nos calabouços onde as trevas eram eternas, esquálidas figuras desvairadas, cabelos revoltos e imundos, entreolhavam-se como fantasmas.

– Mas, senhor, essas portas não são abertas há anos. Todos são loucos, a espúria da sociedade. Se eles saírem se matarão uns aos outros e a nós também. Não farei isso – disse-lhe de supetão o carcereiro, branco como uma vela.

            Ante a negativa do subordinado, o médico tomou-lhe o molho de chaves e foi abrindo as celas uma a uma. Em câmera lenta e com olhares fixos em Pinel, os loucos foram se espalhando, silenciosos, pelos corredores tão imundos quantos as celas. Em dado momento, um homem gigantesco tentava subir as paredes feito uma aranha, os braços e as pernas tentando alcançar o teto onde uma claraboia brilhava ao céu do meio-dia. Revolto e em penitência o maluco ajoelhou-se aos pés do psiquiatra dizendo-lhe que já fazia tempo que não via um raio de sol.

            Essas histórias de trancoso misturadas à dura realidade dos fatos me eram contadas por minha avó materna, Dona Luiza Bravos da Silva, como forma de aquietar o neto mais traquino que ela tinha à época em que morei em uma casa bem ao lado da dela. De onde a vi partir para nunca mais voltar aos 83 anos de idade.

            Saudades daqueles tempos? Claro! Afinal, meu universo infantil era repleto de bilas, bolas de meia, arraias, passarinhos e amigos leais. Muitos deles ainda moram por lá e mesmo depois que parti para o mundo dos adultos, ainda ouço falar de alguns e de suas trajetórias de vida. No entanto, sempre que os sonhos ou pesadelos chegam, ainda somos moleques de calções curtos correndo soltos pelas ruas da minha velha Parangaba, entre chuvas e lembranças pueris.

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2 comentários sobre “DAS COISAS DE MENINO

  1. A crônica me fez recordar a minha infância, quando morava na Bela Vista, próximo a um Hospital Psiquiátrico, cujo o nome me falha a memória, mas a crônica está muito bem escrita, parabéns meu nobre amigo Túlio Monteiro.

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