DE QUE COR É O AMOR?

 

RELÓGIOS DERRETIDOS

De que cor é o amor? Que me responda quem nunca cometeu loucuras por aquelas curvas a mais ou a menos. Quem nunca passeou os dedos entre vinhos e meros cigarros, depois daquele amor inventado com cara de primeira vez, cama desarrumada, roupas espalhadas, esgaçadas. Um cheiro de corpos no ar, suor e risos íntimos – daqueles baixinhos – jeito de cúmplices. Como aquele sonho que parece não terminar.

Essa vida é tão cruel, desprezível e exata que um dia simplesmente acaba, acaba. E o tempo passa transformando o que era amor em coisa que um dia termina, para ou meramente muda de cor, camaleoa minha – cama! E esse tal indelével tempo teima e trama o fim de nosso amor tão lentamente que às vezes nem nos damos conta de que estamos preferindo amar bichos que abanam os rabos: cachorros, gatos, coelhinhos de estimação.

Chegam junto com essas mazelas do tempo a hora de cada um seguir suas estrelas, esquecendo o amor d’antes, suas cores e nuances. Entretons de um amor que já foi e não mais é. E disso, meu amor, não sejamos hipócritas: todo amor acaba ou, no máximo, vira uma doce e cândida amizade. Bem aos modos de poeta largando livro de lado.

E naquele instante em que o amor é dia e se faz noite não tem mais jeito. No antes éramos canibais de nós mesmos, hoje somos chocolate amargo da manhã que sempre chega cinza para depois azular nesse inferno de terra na qual o nosso Deus escolheu para nascermos.

Reguemos as plantas a varanda e choremos sobre todo esse jardim, carmins e aquele pé de jasmim lilás que vemos ao correr da estrada – nossa rota 66 – CE 065, cabelos ao vento. Pé no fundo do acelerador sem tempo a perder e perdemos. Sempre querendo passar a todo custo da vida, só que suas curvas íngremes acabam por terminar…às vezes de maneira fugaz outras lenta e gradativamente regurgitando sobre nossos ombros os erros e acertos de vidas inteiras jogadas fora – acharque. Pântano lodoso com o que antes foram duas almas que se tocaram e se misturaram.

Por fim, vem a morte esta eterna que engana a todos e a si mesma. Fingindo-se inexistente para apenas levar o que restou de nossos corações, nossos projetos de vida.

Derretamos, pois, esses relógios, bichos que marcam horas. E eu afirmo, por fim: as horas realmente existem! O tempo passa incólume e a amargura da velhice chega trazendo junto cadeiras de balanço e o fim da chuva que despenca e insiste em cair molhando a terra que rega as flores sem dono que moram na rua.

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FOLHA

SUELY 2

As folhas de papel voaram da mesa como borboletas. Seria um custo apanhá-las, mas era preciso. Correndo um pouco resgatou todas elas. Algumas intactas, outras, um pouco amassadas ou manchadas. Agora sentia raiva do vento. Havia espalhado tudo e se fora. Uma xícara de café para passar o sono e ela voltou ao trabalho buscando concentração.

Cantarolava baixinho “Oh where, oh where can my baby be?”. Em meio ao trabalho e à distração com a música, não havia percebido uma folha, que subia e descia, ora girando, ora ficando estática com a força do vento ao empurrá-la contra a parede, em um cômodo da casa. O seu movimento lembrava o de um cachorro ao brincar ao ar livre. Mas a moça seguia em frente; tinha prazo a cumprir e era alguém impossível quando o assunto era trabalho ou qualquer outro compromisso. Concentrada que estava, não percebia a folha que vagava perdida.

Quando, enfim, concluiu a tarefa, pois tudo em ordem, conferindo as páginas: relatório por relatório. Estavam todos ali. Uma arrumadinha nos amassados e empoeirados, depois, com todos prontamente envelopados, o destino dela agora seria a cama. Estava exausta e sonhava com o momento em que se aconchegaria nos lençóis. Foi então que, ao entrar no quarto, se deparou com a folha, que antes vagara agitada ao vento, agora, repousada no chão, ao pé da cama.

O primeiro pensamento que lhe veio foi que havia conferido os relatórios, “como então poderia não ter dado pela falta de um?” Mas ao abaixar-se para pegar a folha, pode perceber que o papel era diferente; não era parte de seu trabalho. Porém, ao tocá-la, subitamente um vento invadiu o quarto. Era o mesmo vento que havia lhe irritado mais cedo – ela pensava. Então, a folha inerte foi carregada janela afora, enquanto a moça acompanhava curiosa seus rodopios.

* Uns Contos Insólitos num canto, Outros Nem Tanto – Suely Andrade. Amiga, escritora, poeta, professora e articulista cultural.

SOBRE O FIO DE UMA NAVALHA

NAVALHA

Já são tantos anos caminhando sobre o fio afiado de uma navalha qualquer sempre repleto de incontroláveis ações e relações, nesse meu céu repleto de virtudes e vícios. Logo esse céu para onde não quero ir. E olhe que um dia estive à beira de partir, sentir o sabor do beijo banguela dessa tal senhora morte. Ufa! Que hálito! Crônica louca, mais parecida poesia que escrita de velocidade. Paremos com isso e ignoremos esse galo que canta feito um louco toda manhã anunciando um novo dia. Novo dia? Isso de marcar as horas estancou desde o dia em que parei de querer saber onde começará a minha hora e terminará a tua.

E me desculpe se já não paro para sentir as tuas dores. Eu lamento, pois as minhas eu já não aguento. Entorto a vista a cada vez que você me conta um novo bando de mentiras. Prefiro correr o perigo de talvez nunca mais te achar nem de abrir a boca para pronunciar-te o nome ante mazelas e coisas difíceis tão impossíveis de explicar. Fique, portanto, com o lado direito de meu peito e se dê por satisfeito ou satisfeita, saia ou fique minha amiga ou amante quando eu te bater à porta. Pois sou um sobrevivente de tudo e todos que estão lá fora feito idiotas correndo perigos de desastres naturais ou provocados, pois já cobri minha cota dos riscos de vida pelos quais passei. Perrengues são comigo mesmo.

Hoje amanheci querendo, buscando encrencas. E risquei teu nome no ar com você de volta me esperando na esquina. Um dia eu vou te achar seja nessa ou em outra vida se é que isso de voltar existe mesmo. E te vou ser perverso descontando tudo que te dei e não recebi de volta. Portanto, prepare-se, já que nosso próximo cruzar de olhos haverá de ser em verde-castanho-escuro novamente, olhos reluzentes. Prepare-se, então, meu bar na contramão. É que nunca mais quero ser tratado como um cachorro jogado às pulgas, uma vez que vocação para otário eu nunca tive. Não sou um cão sarnento eu o sou em pessoa e duas palavras bastam para boa entendedora.

Estende essa tua rede e sente o cheiro dessa flor colhida no lixo por minhas mãos calejadas de nada. Faça como Deus, que vive nos ensinando prazos. Coisas de sonhar se a vida já é tão repleta de nada em preto-e-branco. Fecha esse livro, poeta e para de procurar em grandes nomes as respostas que nunca tu terás, já que como a vida todo bom livro também acaba. E não me venhas com desconcertantes beijos de deixar escapar segredos, pois já te disse tantas vezes te amo com esse tempo arrastado por testemunha que resolvi: nunca mais. É que nessa novela chamada vida nunca mais quero ser teu amigo.

 

EM RESPOSTA ÀS QUESTÕES DE CHICO ARAUJO

PERNAS


Enquanto não, ela me olhar, e olhar e olhar o ir e vir das pessoas nas ruas e

avenidas e praças por onde também vou passando…Ela me vai martelando o juízo, insistente, sem cerimônia: “Para onde vão essas pessoa essas pessoas em seus dias?”  (Chico Araujo)

            Acabei de ler uma crônica do ensaísta e escritor Chico Pessoa cuja qual me foi enviada por Kelsen Bravos para meu doce alento e frescor nesta tarde quente de maio. Não deu outra: lá se veio esta que tenta explicar as perguntas aparentemente simples que o poeta nos faz: Que rumos todas as pessoas tomam em seus dias a dias confusos e de certa forma um tanto sem pés nem cabeças?

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.[1]

Em poema homônimo já beliscando cruelmente as mesmas – que também faço minhas – perguntas de Chico Araujo; um tal poeta de sete faces chamado Carlos Drummond de Andrade já se nos antecipava em perguntas indeléveis e marcantes, nos fazendo relembrar de uma certa senhora que nos persegue todos os dias em seu silêncio sepulcral: a Morte! Sim! Ela mesma, prezado Chico Araújo e ledores. Todos os passos que damos na vida, sejam eles felizes, vitoriosos ou não, nos conduzem, incólumes, a essa triste sina final. E aí, não tem jeito: adiante com os versos de Drummond para explicar esse meu texto que é, no fim, o início de mais um tratado de para onde vão todos os seres do planeta quando param de caminhar para sempre:

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Creiamos: a essas horas de uma tarde modorrenta e quente como os infernos de Dante existem milhões de pernas a trafegar buscando não só seus rumos, mas também seu pão de cada dia em um País que está se acabando em meio aos sargaços da corrupção e desavenças partidárias.

Mas a palavra – e seu sentido crucial – segue. E continuará seguindo e sendo preparada amiúde por aqueles que a dominam e buscam a todo intento fazê-lo. Pois aos que escrevem derramou-se sobre eles a famigerada maldição de Sísifo que, em engendrado ensaio filosófico de Albert Camus que se inicia no descrever de uma condição absurda: grande parte da nossa vida é construída sobre a esperança do amanhã; do amanhã que nos aproxima da morte, e é o último inimigo.

Pessoas vivem como se elas não tivessem a certeza da morte; uma vez despojado do romancismo comum, o mundo é um estranho, desarrumado e desumano lugar, onde o verdadeiro conhecimento é impossível de ser explicado pela racionalidade da ciência em favor do mundo: suas histórias, em última análise, no sentido de abstrações, se dão em metáforas. Desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna a mais angustiante de todas as paixões, onde Camus apresenta o mito para trabalhar uma metáfora sobre a vida moderna, como trabalhadores em empregos fúteis em fábricas e escritórios. O operário de hoje trabalha todos os dias em sua vida, executando as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico quando apenas em raros momentos ele se torna consciente.

A abordagem sobre pessoas que vem e vão entre seus problemas e casmurrices sempre fez parte do universo dos escritores ensaístas. Comigo e Chico Araujo não seria diferente e jamais haverei de me comparar a Camus, Drummond ou Lira Neto. Mas fica a promessa de sempre estar em busca de uma verdade que para a qual jamais encontraremos resposta: o que nos espera depois de cessarem nossos passos? E jornada das pernas e pedras continua!

[1] Poema de sete faces, do livro “Alguma Poesia” – 1930.

TAUAÇU DE MEU PEITO

 

TAUAÇU

            Este dó de peito. Esta nota tão relapsa e ao mesmo tempo tão complexa me foi arrancada do nó – pomo de adão – há tempo. Eu que já gritei, esperneei e nunca tive tanto esquecimento em meu cérebro, hoje transtornado pelo tempo, digo: – Ora, se amar nunca me trouxe a exatidão do termo AMOR dentre os corações que habitei, por tantas mãos e corpos que já passei. Nunca me coube aportar meu barco condenado que fui a navegar por um mar de tormentas, de sargaços, sempre a desbancar-me em ondas gigantescas. Olhos fora d´água em gritos tão altos busca de um tauaçu que fosse para amarrar a jangada desse coração nada perene no que diz respeito a fixar amarras.

            Entre sereias e Marias fui sempre Tritão pelas auroras de meu mar, cara donzela. O que fazer se nasci assim, um tanto curumim, um tanto alma velha. Velho senhor que se pensava dono de seus dons a esporear o tempo, açoitando meu destino aos quatro ventos. Faca nos dentes, arrebentando o que vinha pela frente. Até descobrir o que é a paixão e a morte, minha eterna companheira nesse ínterim chamado vida, pois de rede branca, cachorro latindo me esperando, nunca soube o que era varanda arrodeada de beirais e flores.

            Sempre fui verde menino e remoto senhor a caminhar sobre as brasas de corações femininos; uns ferinos outros especialmente felinos. E fui gastando meu precioso tempo e o reliquioso tempo de outros entes queridos (?) de uma forma tal que o que me restou foi o absolutamente nada, um certo carma, nirvana, por fim, a qualquer instante me bater à porta, vamos lá, chegou tua hora.

            Um gosto de cânhamo me habita a língua e a boca, trazendo-me a certeza única que morrer não dói tanto quanto se estar vivo e inativo, já que só o que restou desse que bate no peito como alento são lembranças e lembranças são como cultivar ventos, tempestades, temporais e escassez.

            Entram dias e saem dias sem nada do que previ aconteça. Estarei já eu morto vivendo no tal purgatório dos suicidas? Será que simplesmente já fui e naturalmente não sei disso ou estou mesmo louco vendo o porvir sem nada poder fazer? Perguntas! Para que servem tais substantivos femininos de interrogação, se o coração feminino já é um interrogatório sem defesa de causa?! Ah! As mulheres, entes, djins e flores de jardins. Como foi bom dividir-me entre vocês nessas décadas a caminhar sem tréguas no campo de guerra vida. Perdi muitas batalhas e fui vencedor em tantas outras que se me chegasse a hora agora, diria eu àquela que sempre chega silenciosa, diáfana e medonha a sentar-se à beira de um lugar qualquer para nos esperar com a paciência de sempre:  – Leva-me, então, pois se vim a esse mundo para coabitar-te frente a frente, cabeça a cabeça, desta vez tu perdeste mais que eu.

ELEGIA ÀS MÃES QUE SE FORAM

DIA DAS MÃES

Nesta quebrada de montanha, donde o mar

Parece manso como em recôncavo de angra,

Tudo que há de infantil dentro de minhalma sangra,

Na dor de ter te visto, mãe, agonizar!

(Manoel Bandeira, em “Cinzas das Horas” (1917)

            Se um dia quiseres saber quem sou pergunte a quem sonha, quem sabe da palavra poética, tantas vezes profética. Sou dos que sonham e apesar de tanto sangue já ter perdido, continuo vivo e adorando esses bichos que têm mania de perder coisas…uns tais chamados computadores. E mesmo sendo dos tempos em que máquinas de escrever e papéis carbono ditavam a moda, preciso seguir as coisas novas que também são boas.

         Desde os tempos em que Vinícius datilografava seus originais entre um uísque e outro, dentro de sua banheira em um velho apartamento de Ipanema, sempre gostei do sabor da pena; fosse em forma de lápis, caneta esferográfica ou de uma velha caneta-tinteiro, herança que peguei de meu velho avô quando ele partiu para o céu virar estrela.

            Era moleque quando descobri que além de gostar de bilas, bolas e baladeiras, gostava também de escrever. Tenho um certo primo que também foi atacado por esse negócio de meter no papel as coisas de menino ainda. Ele nunca vai lembrar e se lembrar vai ser de maneira bem lá no antigo. Recordará que escrevemos juntos nosso primeiro livro. Sim, em conjunto com ele rabiscamos originais sobre o que viria a ser um livro de histórias a se propor, desde então, a fazer frente às Reinações de Narizinho. Ora, se éramos Monteiro, por que não escrevermos como Lobato? E assim o fizemos.

            Infelizmente, o tempo, esse sujeito indelével, se encarregou de desaparecer com aqueles originais que para nós hoje seriam, certamente, um tesouro qualquer da nossa juventude. Por muito tempo os guardei, mas tão logo mudei-me da rua de terra branca em que nasci e me criei em algum lugar da casa onde passei anos a morar devem ter sido esquecidos.

               Os meus escritos eram feitos ao sentir do cheiro dos bolos que minha avó Luíza em perfeita sinfonia com tia Lucimar faziam. A mim, cabia lamber as formas e colheres –de-pau untadas do velho chocolate em pó cuja marca nem me interessava saber.

            Quanto aos originais de nossa “obra-prima”, velho primo, eles devem ter sido devorados pelo tempo e pelas traças. Não os possuo mais, como já afirmei. Mas lembrarei para sempre das coisas de dois moleques, hoje reais poetas, a traquinar e escrever sobre coisas que eu nem sei mais do que tratavam. Que fiquem o recordar e uma elegia às mães que já se foram ao Céu de onde nos olham em desvelo.

VIDA DE DOR

Tem piedade de mim! Deixa-me ao menos
Desfrutar um momento de prazer,
Pois que é meu fado despontar na aurora
E ao crepúsc’ulo morrer!…

Vida de Flor – Fagundes Varela

 

DORES DA ALMA

 

Hoje estava a relembrar-me de alguns poetas de lida e de linho. Conheci muitos. Dos que vestiam a mesma roupa, sempre, aos janotas dos clubes e saraus modernosos, cheios de perfumes e firulas a declamar e decantar suas musas, seus feitos bravios, suas conquistas e metais raros.

Como atravessei o século 20 e já estou no 21, não foram poucos os bardos que vi passarem dessa para melhor. Uns em cortejos dignos de garbosos féretros outros na mais completa solidão de alguns gatos pintados e carpideiras de última hora. O certo é que ela sempre vem, incólume e silenciosa. Senta-se e espera com seu rosto magro que os tolos sepultem o que sobrou de um poeta, lambendo os beiços por ter levado mais um ou uma que cismou em desafiá-la, cada qual ao seu modo. Para quê citar ou não citar nomes? Simples! Com muitos só troquei um bom dia e de outros fui amigo até hoje mesmo depois de suas idas sem vindas nem vidas. Mas é melhor deixar os mortos em seus descansos finais para darmos mais fluidez nesse mero texto ora a homenagear um amigo. Ainda vivo, diga-se de passagem.

Mais um desses sujeitos simpáticos que conheci vendendo ou distribuindo sua poesia pelas ruas e praças de Fortaleza nos idos anos 1990, já de bengala às mãos feito um Chaplin com ares de cearense da gema. Falo de Jorge Furtado, que até no nome não foi poupado no que se diz respeito à sua beleza. Sempre risonho é outra dessas figuras ímpares que te fazer sorrir e não rir de suas estripulias. A exemplo de já ter espalhado sua passagem mais de umas vinte vezes o que de início, qual a fábula do garoto e seus cordeiros, sempre nos deixava tristes, enlutados e pensando como faríamos para dar conta de outro Mário Gomes.

Brincadeira dele, sim! Sempre teve essa mania de dizer morto, o velho Jorge. E pode anotar aí, que de tanto falar nesse tom de decoreba um dia ele acaba acertando e ninguém vai acreditar. Creio que só vamos encontrar o Jorge da mesma forma que foi encontrado o Nilto Maciel, uns três dias depois e, ainda assim, por acaso.

Está cansado, só e doente Jorge Furtado. Ossos fustigados. Dia desses me falou que está sendo muito bem amparado pelo pessoal da Casa do Cantador de Fortaleza, mais conhecida como ACN – Associação dos Cantadores do Nordeste, lá para os lados do Carlito Pamplona.

Traços de quem sabe das dores que deveras sente, mas não perde a piada de revés; aquela que chega em tom de chiste e sempre enrola a gente com o jeito moleque de cearense de ser. Findo-me, pois, a admirar e suscitar as dores que afligem o poeta ao escrever os versos abaixo em pleno vigor de sua capacidade intelectual em detrimento de sua saúde física. Mas, enfim, eles são assim mesmo, eternizam-se em seus escritos:

POEMA DE RESISTÊNCIA

Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.

(Jorge Furtado, poeta, cordelista e amante das Artes – 2017)

PRA DESCER NO PARAÍSO

Eis o que consegui tremulamente dizer na cerimônia de batizado do meu caçula, ontem.

Há pouco mais de três anos um amigo e fez uma “proposta indecente”, na sua exata expressão. Se eu queria ser a mãe do filho dele. O mero pedido já era uma honra, mas pra me tirar qualquer possibilidade de defesa, ele ainda acrescentou: só você se encaixa no perfil de quem pretendo para essa parceria ad eternum. Até hoje não tenho certeza, mas na hora achei que era u elogio e aceitei. E assim, o que às vezes é um fardo pra muitas mulheres, pra mim tem sido, mais que um privilégio, uma benção diária. Nas primeiras noites que passamos com o bebê, eu  – que já tenho um filho adulto  – , eu é que fui a marinheira de primeira viagem. Meu amigo parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão cuidar de um recém-nascido. E nesses três anos tem sido o pai mais amoroso que uma criança ode ter. Todos somos testemunha disso, e estamos orgulhosos e felizes.

Mas aposto que nesse momento não há ninguém mais feliz e orgulhoso que o autor desse Milagre, Aquele que depositou em nossas mãos inábeis a expressão de seu Amor por nós: uma vida pra cuidar. Se pudéssemos ver Deus agora, acho que Ele apareceria como o imaginam as crianças: um velho de longas barbas brancas. Mas em vez do ar severo que insistem em Lhe dar, exibiria um terno sorriso de vovô voltado para esta Casa.

Cristina Carvalho – escritora, crítica literária, amiga e mãe. Atualmente, dedica-se, também, à tradução da obra literária de Emily Dickinson (1830-1886), composta de 1776 poemas e 44 cartas.

POEMA PARA FERNANDO PESSOA

“Toda a gente é caricatura de uma única pessoa que não existe” – Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA - Marcos Abreu

Algumas impressões do crepúsculo,

e, na hora absurda, vem a chuva oblíqua

nos passos da cruz.

A súbita mão de algum fantasma oculto.

Nesses episódios que me cercam sinto-me múmia.

Onde pus minha esperança?

Nas rosas que florescem!

Feliz dia para quem?

Esse Natal chegou

e o sino de minha aldeia agora toca:

Suave…breve…tão pobre e velha música.

Dorme, agora, sol nulo dos dias vãos.

Ela canta, pobre ceifeira, qualquer música.

É Natal e aqui não neva;

mas agora chegou a tarde calma,

cheia de céu tranquilo.

O momento da Iniciação

chegou lá na sombra do monte,

onde fiz minha autopsicografia.

Naquele momento passou uma nuvem

sob o Sol que dorme, pois sem ele a vida é nada,

apenas uma onda que, enrolada,

está presa no mundo que esquecemos.

Mas eu nunca guardei rebanhos.

Sonhos, ilusões, pois o meu olhar é nítido,

como um girassol.

Está tarde a chuva caiu

e fiquei debruçado sobre a janela.

Há metafísica bastante em não pensar em nada,

já que pensar em Deus é desobedecê-lo?

De minha casa vejo o quanto posso saber do Universo.

De sol a sol não vejo mais rebanhos,

já não me importo com as rimas,

só raras vezes.

Quem me dera que eu fosse o pó da terra,

o luar quando bate na relva.

Há se eu pudesse trincar a terra toda.

O meu olhar azul não se entristeceria.

Conheci, hoje, que só a natureza é divina.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo;

se, às vezes, digo que as flores sorriem,

pobres flores, no canteiro de meu jardim.

Acho tão natural, que não se pense

e há poetas que não são artistas:

vivem como um grande borrão de fogo sujo.

Bendito seja o Sol de toda a Terra!

Da mais alta janela de minha casa,

meto-me para dentro e fecho a janela

e vejo meu mestre.

–  Vem sentar-se comigo, filho,

come à minha mesa,

as rosas do jardim de Adônis estão contigo.

Segue o teu destino de poeta;

não precisas recordar o passado.

A flor que és, não a que dás, eu quero;

não quero só vinho, quero acabar entre flores,

na antemanhã, quero deixar o Nevoeiro

e seguir rumo à paz.

Autor: Marcos Antonio de Abreu, escritor, poeta, cordelista e disseminador cultural

POEMA DE RESISTÊNCIA

VIDA DE DOR

Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.

(Jorge Furtado Poeta e escritor cearense – 2017)