AS PALAVRAS

Palavras

As Palavras… São como folhas que caem das árvores Ou como pássaros que pousam leve. Umas queimam muito como a urtiga, Outras, gélidas, são como a neve. Às vezes, tal lâminas afiadas. Noutras vezes, são como curativos, Deixando as almas aliviadas. Noutras, breves, ágeis, são incentivos. Plumas de pavão ou o mimetismo Do camaleão ou, ainda, a cor fluida de algum organismo. Ou nuvens em algodão e seu brancor. Ou são peças de um quebra-cabeça. Ou se travestem com muitos enigmas, E somem antes que se adormeça, Carregando consigo seus estigmas. Essa é a mágica das palavras: Transmutam-se como as borboletas, Embora amenas se mostram bravas. Há quem as use como “muletas”, Mas há quem com elas seja tão hábil, Tão apto, proficiente, prestímano, Que as use como usa um sábio Os erros para seu próprio estímulo. Destarte, elas sobrepujam a quântica. Desfilam, passeiam, fluem, concebem O leque colorido da semântica, Para quem sabiamente as desvestem, Muito embora, haja quem as use Sem harmonia, senso ou estilo. O que importa sim é abraçá-las, Assumindo-as sem pudor ou sigilo.

Suely Andrade – Escritora e crítica literária cearense

 

Apóstolo 1

apóstolos

cai a tarde com um anjo de verso usual
com rodas de fogo e veloz nos levou
a face, a taça, o vinho e a pena de metal.
o velho está morto! jaz apolíneo e morto

na paranoia do espetáculo o manuscrito
da urgência – o alfabeto do dia-a-dia.
esmaga o crânio de Lúcifer – maldito
e sorri no plenilúnio dos seios das ninfas.

equinócio das vacas, sussurros das coisas,
no tecer da rendeira a violência te calou.
como quem descreve no asfalto doidas

histórias (motos), dragões e tuas mágoas
nosso relicário dor de órbitas e cotidiano
velhas parábolas e prantos em teu manto.

Soneto do poeta José leite Netto, a ser publicado, em breve, no livro TRAPÉZIO. Uma homenagem a José Alcides Pinto.

A FATAL SENHORA

Morte

“Zum, zum, zum… está faltando um!”
(Paulo Soledade e Fernando Lobo)

No meu diálogo com o silêncio do convés,
Falta um céu azul risonho para o meu sol,
Falta um relvado que fugiu dos meus pés,
Falta um sonho que apagou-se no arrebol.

Falta sempre o Alguém pela ampulheta da hora,
Estou sempre órfão e viúvo no portão do jardim.
Estou sempre à espera da invasora fatal Senhora
Que chegará a qualquer hora sem pena de mim.

Dioguinho Fontenelle – Amigo e poeta que dispensa apresentações.

UM POEMA DE ARACELI SOBREIRA BENEVIDES

estátuas-de-mármore

Um dia a gente tem mãe, baby,
Tem dia que não tem mais.
A gente desce uma ladeira
Correndo, segurando uma rosa branca na mão
Noutro dia, a rosa escurece, esvai-se em leveza.
Um dia, um guarda-chuva arco-íris
Protege-nos dos trovões
E nossos risos embaixo da cama
Se encontram com as formigas e as aranhas
“E as mães que não varreram nada?
Não viram nada?”
Muitas cicatrizes na pele preta, na pele parda
Muita dor na carne crua
Um menino sozinho na violência da vida
Baby, é isso que acontece, quando as mães morrem cedo,
Antes da chuva do meio-dia.
Antes da torta de framboesa…
Antes que os vestidos fiquem longos
E as tranças fiquem feitas.
Baby, é isso que acontece quando as mães
Não sabem como o Mal
Entra na pele das crianças
E as estátuas de mármore não revelam para onde foi toda a inocência das baladas de ninar…

Lembrando de alguém que sofreu mais do que eu!
Em 05/06/17 – Por Araceli Sobreira Benevides – Amiga e poeta.

CEM ANOS DEPOIS

 

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. (Rachel de Queiroz “O Quinze”)

– Eita, homem! Que sequidão é essa?!

– Sei lá, mas pelo piado desse bem-te-vi o negócio vai ser brabo pelo resto do ano. Dessa vez falta água de até nas vazantes dessa terra desgraçada e miserável.

E o calor transcorria seco, rasgado e modorrento pelos ares nada úmidos daquele interior perdido no tempo. Perecia fogo em brasa. E como onde há fumaça há fogo por lá também havia. Restos de bois e cabritos magros abandonados por Deus e até mesmo pelo diabo naquela torridão de chão que já se alastrava até a capital.

Caminhavam cabisbaixos em número de três contando os mosaicos formados pelo barro que havia surgido onde antes havia água para uma boa pescaria regada a uma pinga de cabeça, coisa que só eles sabiam o que era. Largaram tudo e rumaram para a cidade mais próxima. Pior do que ali não podia estar – dizia o que aparentemente era mais esperto dos miolos.

            – Diachos! Nem meu burro velho escapou comendo palma. Taí o resultado desse ano de 15. Gente morrendo de fome e nós no meio delas. Se pelo menos pai tivesse sobrevivido aos maus tratos das dores nas pernas ele ia dar uma luz de pra onde a gente ir.

            No caminho, léguas e légua já percorridas, uma casinha de taipa ou a sombra de um bom juazeiro sempre serviam de abrigo ali pelo meio-dia, quando ficava impossível de caminhar sem rumo, ou pelo faro como dizia o menos servido de raciocínio.

 – Foi aqui onde nasci e me criei. Pai e mãe, avô e vó, todos eram agricultores. Não tenho vontade de deixar, de sair e ir para cidade não tenho vontade, não. Fui criado na agricultura e queria viver por aqui mesmo até quando Deus quiser.

– Cala a boca e anda, irmão. Eu te falei pra não trocar tua bezerra por esse tal de telefone celular que taí, na tua matalotagem, sem servir pra nada. Nem eletricidade tinha mais lá em casa quando tu fez essa bela troca com aquele galego dos diabos, que apareceu por lá cheio de porcarias pra vender e pra trocar. Mas, não, você foi na dele e deu no que deu. Tá lá, a casa fechada. Cadeado na meia porta sujeito a qualquer um invadir nossa morada de barro batido que pai fez pra a gente morar em cima daquele lajedo. Burro!

Deve ser um segredo guardado a sete chaves pelos centenários sertanejos que ainda habitam aquela região, mas muitos comentam ao pé do ouvido que há, com certeza, uma profecia sertaneja preconizando que a cada cem anos uma devastadora estiagem irá assolar todas as redondezas. A seca sempre virá destruindo e queimando tudo, tangendo da vida animais e plantas, amedrontando o homem mais destemido e demonstrando todas as fragilidades dos viventes diante das forças revoltosas da natureza. Reza uma lenda, que isto estava escrito num pedaço de umburana, guardado dentro de um alforje carcomido e escondido numa gruta nas proximidades da divisa entre Canindé e Poço Redondo. Conto assim porque assim me contaram, porque assim ouvi falar.

Com o mormaço por companheiro, o terceiro irmão que até ali não havia aberto a boca, saiu-se com essa lembrança. Coisa passada de ouvido a ouvido por gerações inteiras sobre almas penadas e gente morta de sede.

– Vocês lembram de quando vô ficava proseando com os amigos e falou que já fazia tempo que uma tal de seca de 1915 tinha quase acabado com esse nosso Ceará? Vinha ele e tio Abinêr conversando por uma estrada e começaram a conversar sobre o assunto, e foi quando um deles parou e disse espantado: “Danou-se, cumpade, pois se dizem que uma das maiores secas foi a de 1915, a que vem aí vai ser em 2015, que é quando completa cem anos”. E seguiram caminho acima, visivelmente preocupados, sem trocar mais nenhum pé de palavra.

 – Para de conversa, besta dos diachos, e anda sem falar tanta porcaria. Tá vendo aquele pé de Juá lá na frente? – Disse o irmão mais velho, atalhando a vista com a palma da mão para encobrir o tremeluzir do vento quente que tracejava ilusões de ótica nas vistas cansadas daqueles três andarilhos.

– Vamos parar por lá hoje pra mode descansar. Quem sabe num tem uma alma viva numa casa qualquer pra nos dar uma noite de descanso e um pouco de água e comida?!

            Com efeito, a seca de 1915 foi uma das mais terríveis que já se espalhou pela região nordestina. Foi a inclemência da devastação de tudo acima e abaixo da terra, do desespero do homem e da dizimação dos rebanhos, da fome e da sede alastradas em progressão alarmante, das muitas e muitas levas de retirantes abandonando seus lugarejos já quase mortos. Foi nessa estiagem que, para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense criou campos de concentração nos arredores das grandes cidades, nos quais recolhia os flagelados. A varíola fez centenas de mortos no Campo do Alagadiço, próximo a Fortaleza, lugarejo onde em 1829 nasceu José de Alencar.

Lá se espremiam mais de 8 mil pessoas, sem a presença de condições sanitárias, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados. A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou “molambudos”, como eram também conhecidos. O que era ruim ficou pior ainda.

            Dados informam que durante semelhante estiagem teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migraram para escapar da “velha do chapelão” – como a fome era conhecida no imaginário do semiárido.

            Segredos de alforje ou não, parecia que a velha profecia voltava a se realizar e os três irmãos, enfim, chegaram ao precioso pé de Juazeiro onde pessoas não haviam, mas a sombra que por lá se agigantava deu guarida aos caminhantes e suas pernas já cansadas de tantas léguas tiranas. Ficariam por ali até à noite quando a fresca da madrugada, enfim, resfriava um pouco o enfado de um dia inteiro a caminhar no rumo da tão sonhada cidade de Fortaleza, onde tinham parentes que, quem sabe, os socorreriam ante tamanha necessidade.

            A tarde veio, a noite chegou e o silêncio só era quebrado agora pelos piados das corujas rasga-mortalhas que teimavam em sair à noite à caça de roedores, esses sim, uma verdadeira peste nos descampados do sertão jaguaribano.

            Uma pequena fogueira tinha sido acesa para assar um velho pedaço de charque que ainda teimava em sobrar nas mochilas carregadas às costas pelos três irmãos. O mais velho, soturno e quase sempre calado quando a noite chegava estava lá com seus medos de visagens, quando se saiu com uma solução pensada e repensada milhares de vezes.

– Amanhã bem cedo vamos tratar de pegar uma dessas pistas para a gente dar um rumo melhor da cidade. Andando por esses torrões sem eira nem beira não vamos chegar é em lugar nenhum. – Afirmou, tendo por concordância o balançar de cabeças de seus irmãos mais novos.

Dito e feito! Pelo amanhecer do dia e com o calor já comendo de esmola, rumaram para a rodovia mais próxima de que tinham notícias. Má escolha. Os poucos caminhões e carros que passavam se recusavam terminantemente a lhes dar carona e o solo abrasador do asfalto só aquecia mais as laterais cheias de seixos. O máximo que tinham conseguido era um pouco de água que um caminhoneiro resolveu lhes dar juntamente com carnes enlatadas retiradas da carga que, às pressas, rumava em sentido contrário ao seu.

Mais um dia de sequidão e solidão conseguiram, por fim, caronas mal-ajambradas em cima de um caminhão que conduzia uma carga de caixas de mantimentos para Fortaleza. Enfim, chegariam à cidade da luz onde, sem saberem, dois milhões e meio de pessoas se apinhavam num indo e vindo de transeuntes a caminho do trabalho ou à procura desse.

Tinham que encontrar os parentes que pelo que sabiam também não andavam bem das finanças, mas haveriam de lhes dar um norte, um trabalho qualquer para ajudar a tocar a vida. Como estava indo para a Governador Sampaio descarregar, o caminhoneiro os deixou no centro de onde poderiam encontrar condução para o bairro que eles buscavam. Desceram e agradeceram com o gestual típico do povo interiorano para, rotos, desapareceram em meio à multidão de pernas que se apressavam em mais uma manhã de segunda-feira causticante. Estavam na cidade grande, onde nenhum deles jamais tinha pisado. Uma sensação de perda ficara para trás ao mesmo tempo que, abismados com tantas pessoas e prédios, se interrogavam como chegariam ao endereço contido em um velho pedaço de papel. De casa, só as lembranças perdurariam, enquanto se engendravam pelas ruas da capital do Sol em busca talvez de nada.

DE QUE COR É O AMOR?

 

RELÓGIOS DERRETIDOS

De que cor é o amor? Que me responda quem nunca cometeu loucuras por aquelas curvas a mais ou a menos. Quem nunca passeou os dedos entre vinhos e meros cigarros, depois daquele amor inventado com cara de primeira vez, cama desarrumada, roupas espalhadas, esgaçadas. Um cheiro de corpos no ar, suor e risos íntimos – daqueles baixinhos – jeito de cúmplices. Como aquele sonho que parece não terminar.

Essa vida é tão cruel, desprezível e exata que um dia simplesmente acaba, acaba. E o tempo passa transformando o que era amor em coisa que um dia termina, para ou meramente muda de cor, camaleoa minha – cama! E esse tal indelével tempo teima e trama o fim de nosso amor tão lentamente que às vezes nem nos damos conta de que estamos preferindo amar bichos que abanam os rabos: cachorros, gatos, coelhinhos de estimação.

Chegam junto com essas mazelas do tempo a hora de cada um seguir suas estrelas, esquecendo o amor d’antes, suas cores e nuances. Entretons de um amor que já foi e não mais é. E disso, meu amor, não sejamos hipócritas: todo amor acaba ou, no máximo, vira uma doce e cândida amizade. Bem aos modos de poeta largando livro de lado.

E naquele instante em que o amor é dia e se faz noite não tem mais jeito. No antes éramos canibais de nós mesmos, hoje somos chocolate amargo da manhã que sempre chega cinza para depois azular nesse inferno de terra na qual o nosso Deus escolheu para nascermos.

Reguemos as plantas a varanda e choremos sobre todo esse jardim, carmins e aquele pé de jasmim lilás que vemos ao correr da estrada – nossa rota 66 – CE 065, cabelos ao vento. Pé no fundo do acelerador sem tempo a perder e perdemos. Sempre querendo passar a todo custo da vida, só que suas curvas íngremes acabam por terminar…às vezes de maneira fugaz outras lenta e gradativamente regurgitando sobre nossos ombros os erros e acertos de vidas inteiras jogadas fora – acharque. Pântano lodoso com o que antes foram duas almas que se tocaram e se misturaram.

Por fim, vem a morte esta eterna que engana a todos e a si mesma. Fingindo-se inexistente para apenas levar o que restou de nossos corações, nossos projetos de vida.

Derretamos, pois, esses relógios, bichos que marcam horas. E eu afirmo, por fim: as horas realmente existem! O tempo passa incólume e a amargura da velhice chega trazendo junto cadeiras de balanço e o fim da chuva que despenca e insiste em cair molhando a terra que rega as flores sem dono que moram na rua.

FOLHA

SUELY 2

As folhas de papel voaram da mesa como borboletas. Seria um custo apanhá-las, mas era preciso. Correndo um pouco resgatou todas elas. Algumas intactas, outras, um pouco amassadas ou manchadas. Agora sentia raiva do vento. Havia espalhado tudo e se fora. Uma xícara de café para passar o sono e ela voltou ao trabalho buscando concentração.

Cantarolava baixinho “Oh where, oh where can my baby be?”. Em meio ao trabalho e à distração com a música, não havia percebido uma folha, que subia e descia, ora girando, ora ficando estática com a força do vento ao empurrá-la contra a parede, em um cômodo da casa. O seu movimento lembrava o de um cachorro ao brincar ao ar livre. Mas a moça seguia em frente; tinha prazo a cumprir e era alguém impossível quando o assunto era trabalho ou qualquer outro compromisso. Concentrada que estava, não percebia a folha que vagava perdida.

Quando, enfim, concluiu a tarefa, pois tudo em ordem, conferindo as páginas: relatório por relatório. Estavam todos ali. Uma arrumadinha nos amassados e empoeirados, depois, com todos prontamente envelopados, o destino dela agora seria a cama. Estava exausta e sonhava com o momento em que se aconchegaria nos lençóis. Foi então que, ao entrar no quarto, se deparou com a folha, que antes vagara agitada ao vento, agora, repousada no chão, ao pé da cama.

O primeiro pensamento que lhe veio foi que havia conferido os relatórios, “como então poderia não ter dado pela falta de um?” Mas ao abaixar-se para pegar a folha, pode perceber que o papel era diferente; não era parte de seu trabalho. Porém, ao tocá-la, subitamente um vento invadiu o quarto. Era o mesmo vento que havia lhe irritado mais cedo – ela pensava. Então, a folha inerte foi carregada janela afora, enquanto a moça acompanhava curiosa seus rodopios.

* Uns Contos Insólitos num canto, Outros Nem Tanto – Suely Andrade. Amiga, escritora, poeta, professora e articulista cultural.

SOBRE O FIO DE UMA NAVALHA

NAVALHA

Já são tantos anos caminhando sobre o fio afiado de uma navalha qualquer sempre repleto de incontroláveis ações e relações, nesse meu céu repleto de virtudes e vícios. Logo esse céu para onde não quero ir. E olhe que um dia estive à beira de partir, sentir o sabor do beijo banguela dessa tal senhora morte. Ufa! Que hálito! Crônica louca, mais parecida poesia que escrita de velocidade. Paremos com isso e ignoremos esse galo que canta feito um louco toda manhã anunciando um novo dia. Novo dia? Isso de marcar as horas estancou desde o dia em que parei de querer saber onde começará a minha hora e terminará a tua.

E me desculpe se já não paro para sentir as tuas dores. Eu lamento, pois as minhas eu já não aguento. Entorto a vista a cada vez que você me conta um novo bando de mentiras. Prefiro correr o perigo de talvez nunca mais te achar nem de abrir a boca para pronunciar-te o nome ante mazelas e coisas difíceis tão impossíveis de explicar. Fique, portanto, com o lado direito de meu peito e se dê por satisfeito ou satisfeita, saia ou fique minha amiga ou amante quando eu te bater à porta. Pois sou um sobrevivente de tudo e todos que estão lá fora feito idiotas correndo perigos de desastres naturais ou provocados, pois já cobri minha cota dos riscos de vida pelos quais passei. Perrengues são comigo mesmo.

Hoje amanheci querendo, buscando encrencas. E risquei teu nome no ar com você de volta me esperando na esquina. Um dia eu vou te achar seja nessa ou em outra vida se é que isso de voltar existe mesmo. E te vou ser perverso descontando tudo que te dei e não recebi de volta. Portanto, prepare-se, já que nosso próximo cruzar de olhos haverá de ser em verde-castanho-escuro novamente, olhos reluzentes. Prepare-se, então, meu bar na contramão. É que nunca mais quero ser tratado como um cachorro jogado às pulgas, uma vez que vocação para otário eu nunca tive. Não sou um cão sarnento eu o sou em pessoa e duas palavras bastam para boa entendedora.

Estende essa tua rede e sente o cheiro dessa flor colhida no lixo por minhas mãos calejadas de nada. Faça como Deus, que vive nos ensinando prazos. Coisas de sonhar se a vida já é tão repleta de nada em preto-e-branco. Fecha esse livro, poeta e para de procurar em grandes nomes as respostas que nunca tu terás, já que como a vida todo bom livro também acaba. E não me venhas com desconcertantes beijos de deixar escapar segredos, pois já te disse tantas vezes te amo com esse tempo arrastado por testemunha que resolvi: nunca mais. É que nessa novela chamada vida nunca mais quero ser teu amigo.

 

EM RESPOSTA ÀS QUESTÕES DE CHICO ARAUJO

PERNAS


Enquanto não, ela me olhar, e olhar e olhar o ir e vir das pessoas nas ruas e

avenidas e praças por onde também vou passando…Ela me vai martelando o juízo, insistente, sem cerimônia: “Para onde vão essas pessoa essas pessoas em seus dias?”  (Chico Araujo)

            Acabei de ler uma crônica do ensaísta e escritor Chico Pessoa cuja qual me foi enviada por Kelsen Bravos para meu doce alento e frescor nesta tarde quente de maio. Não deu outra: lá se veio esta que tenta explicar as perguntas aparentemente simples que o poeta nos faz: Que rumos todas as pessoas tomam em seus dias a dias confusos e de certa forma um tanto sem pés nem cabeças?

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.[1]

Em poema homônimo já beliscando cruelmente as mesmas – que também faço minhas – perguntas de Chico Araujo; um tal poeta de sete faces chamado Carlos Drummond de Andrade já se nos antecipava em perguntas indeléveis e marcantes, nos fazendo relembrar de uma certa senhora que nos persegue todos os dias em seu silêncio sepulcral: a Morte! Sim! Ela mesma, prezado Chico Araújo e ledores. Todos os passos que damos na vida, sejam eles felizes, vitoriosos ou não, nos conduzem, incólumes, a essa triste sina final. E aí, não tem jeito: adiante com os versos de Drummond para explicar esse meu texto que é, no fim, o início de mais um tratado de para onde vão todos os seres do planeta quando param de caminhar para sempre:

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Creiamos: a essas horas de uma tarde modorrenta e quente como os infernos de Dante existem milhões de pernas a trafegar buscando não só seus rumos, mas também seu pão de cada dia em um País que está se acabando em meio aos sargaços da corrupção e desavenças partidárias.

Mas a palavra – e seu sentido crucial – segue. E continuará seguindo e sendo preparada amiúde por aqueles que a dominam e buscam a todo intento fazê-lo. Pois aos que escrevem derramou-se sobre eles a famigerada maldição de Sísifo que, em engendrado ensaio filosófico de Albert Camus que se inicia no descrever de uma condição absurda: grande parte da nossa vida é construída sobre a esperança do amanhã; do amanhã que nos aproxima da morte, e é o último inimigo.

Pessoas vivem como se elas não tivessem a certeza da morte; uma vez despojado do romancismo comum, o mundo é um estranho, desarrumado e desumano lugar, onde o verdadeiro conhecimento é impossível de ser explicado pela racionalidade da ciência em favor do mundo: suas histórias, em última análise, no sentido de abstrações, se dão em metáforas. Desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna a mais angustiante de todas as paixões, onde Camus apresenta o mito para trabalhar uma metáfora sobre a vida moderna, como trabalhadores em empregos fúteis em fábricas e escritórios. O operário de hoje trabalha todos os dias em sua vida, executando as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico quando apenas em raros momentos ele se torna consciente.

A abordagem sobre pessoas que vem e vão entre seus problemas e casmurrices sempre fez parte do universo dos escritores ensaístas. Comigo e Chico Araujo não seria diferente e jamais haverei de me comparar a Camus, Drummond ou Lira Neto. Mas fica a promessa de sempre estar em busca de uma verdade que para a qual jamais encontraremos resposta: o que nos espera depois de cessarem nossos passos? E jornada das pernas e pedras continua!

[1] Poema de sete faces, do livro “Alguma Poesia” – 1930.

TAUAÇU DE MEU PEITO

 

TAUAÇU

            Este dó de peito. Esta nota tão relapsa e ao mesmo tempo tão complexa me foi arrancada do nó – pomo de adão – há tempo. Eu que já gritei, esperneei e nunca tive tanto esquecimento em meu cérebro, hoje transtornado pelo tempo, digo: – Ora, se amar nunca me trouxe a exatidão do termo AMOR dentre os corações que habitei, por tantas mãos e corpos que já passei. Nunca me coube aportar meu barco condenado que fui a navegar por um mar de tormentas, de sargaços, sempre a desbancar-me em ondas gigantescas. Olhos fora d´água em gritos tão altos busca de um tauaçu que fosse para amarrar a jangada desse coração nada perene no que diz respeito a fixar amarras.

            Entre sereias e Marias fui sempre Tritão pelas auroras de meu mar, cara donzela. O que fazer se nasci assim, um tanto curumim, um tanto alma velha. Velho senhor que se pensava dono de seus dons a esporear o tempo, açoitando meu destino aos quatro ventos. Faca nos dentes, arrebentando o que vinha pela frente. Até descobrir o que é a paixão e a morte, minha eterna companheira nesse ínterim chamado vida, pois de rede branca, cachorro latindo me esperando, nunca soube o que era varanda arrodeada de beirais e flores.

            Sempre fui verde menino e remoto senhor a caminhar sobre as brasas de corações femininos; uns ferinos outros especialmente felinos. E fui gastando meu precioso tempo e o reliquioso tempo de outros entes queridos (?) de uma forma tal que o que me restou foi o absolutamente nada, um certo carma, nirvana, por fim, a qualquer instante me bater à porta, vamos lá, chegou tua hora.

            Um gosto de cânhamo me habita a língua e a boca, trazendo-me a certeza única que morrer não dói tanto quanto se estar vivo e inativo, já que só o que restou desse que bate no peito como alento são lembranças e lembranças são como cultivar ventos, tempestades, temporais e escassez.

            Entram dias e saem dias sem nada do que previ aconteça. Estarei já eu morto vivendo no tal purgatório dos suicidas? Será que simplesmente já fui e naturalmente não sei disso ou estou mesmo louco vendo o porvir sem nada poder fazer? Perguntas! Para que servem tais substantivos femininos de interrogação, se o coração feminino já é um interrogatório sem defesa de causa?! Ah! As mulheres, entes, djins e flores de jardins. Como foi bom dividir-me entre vocês nessas décadas a caminhar sem tréguas no campo de guerra vida. Perdi muitas batalhas e fui vencedor em tantas outras que se me chegasse a hora agora, diria eu àquela que sempre chega silenciosa, diáfana e medonha a sentar-se à beira de um lugar qualquer para nos esperar com a paciência de sempre:  – Leva-me, então, pois se vim a esse mundo para coabitar-te frente a frente, cabeça a cabeça, desta vez tu perdeste mais que eu.